Sempre tive cabelos bem curtinhos e estava bem com isso. Durante muitos anos me serviu ter um cabelo que demandava poucos cuidados. Era prático, discreto, simples e muitas pessoas usavam o mesmo corte que o meu, me tornava igual, me dissolvia na multidão.
Aos poucos tudo isso que eu achava positivo no meu cabelo curto começou a me incomodar. Comecei a observar pessoas com uma vasta cabeleira comprida e comecei a admirar o brilho, a força, o tamanho, tipos variados, mais lisos ou enrolados, finos ou grossos, cores e tonalidades diversas e cachos de todos os tamanhos, as várias formas de penteado e como o cabelo delas às distinguiam uma das outras, afirmavam sua identidade, marcavam traços culturais e gostos pessoais. Comecei a DESEJAR o mesmo pra mim e decidi: Meu cabelo vai crescer.
O primeiro passo era procurar alguém que pudesse me orientar, minha experiência em mudanças era quase nenhuma, sempre fui assim. Pedi ajuda a amigos cabeludos, sim, eles estavam no rol das minhas relações e me deram uma miríade de conselhos bem intencionados, no entanto, sem efeito. Até que alguém me sugeriu que eu procurasse um profissional, um especialista em ajudar quem quer fazer uma mudança tão significativa.
Nosso primeiro encontro foi animador, vimos as possibilidades de mudança, as técnicas disponíveis e a oferta de ajuda e apoio para cada passo que eu desse na direção do que eu estava em busca, uma cabeluda cabeça, saudável, vistosa e que me traduzisse.
A cada semana, eu voltava ao especialista: eram feitas observações, sugestões, reflexões, massagens, exercícios, interações farmacológicas e dietéticas necessárias. Tudo isso me empolgava muito e estava apressado pelos resultados. Dizia pra mim mesmo: Agora vai! Vou conseguir! Terei cabelos lindos e sedosos, vai ser maravilhoso!
Passou um mês, dois, três e nada…
Nada não, cresceu um pouquinho mas nada que pudesse fazer muita diferença para quem via. Bateu um enorme desânimo, não que eu não tivesse sido alertado pelo meu cabeleireiro, ele me avisou:
– Olha, isso demora, não é assim de uma hora pra outra, é aos poucos, passo a passo… Até porque foram anos de descuido e maus tratos com este cabelo.
Mas a minha noção de tempo era de quem queria que tudo acontecesse logo, rápido, fácil e definitivo.
Fui encorajado a seguir em frente, a valorizar os poucos milímetros de crescimento, o quanto eles eram significativos, uma verdadeira conquista e me convenci de que valia seguir em frente.
Mais alguns meses se passaram e agora eu estava realmente muito despontado, revoltado mesmo.
Meu cabelo estava sem forma, desengonçado, feio, não assentava de jeito nenhum, os redemoinhos me desesperavam com sua teimosia de irem para onde queriam. Uma nova forma que eu não conseguia lidar…
Questionei tudo, a eficiência do tratamento, a competência do profissional, a minha competência e se de fato eu merecia aquilo. Se era capaz de sustentar e que aquilo não era pra mim. Estava desistindo.
Ia passar a tesoura. Voltar a ser o que era. Muito mais confortável pois que era muito bem conhecido por mim. Sabia tudo a respeito de como ser com meu cabelo curto mesmo desejando ter cabelos longos. Poderia viver com isso, já desejei outras coisas e desisti também. Conseguiria me controlar mesmo quando sentimentos de frustração por não conseguir e a vontade ardente de mudar me tomassem por inteiro. Sei sofrer disso.
Meu cabeleireiro, então, interviu amorosamente e disse:
– Você pode cortar o cabelo, nada te impede mas você não vai voltar a ser o que era. Seus cabelos já cresceram até aqui e isso é inegável. Você já viveu isso, está registrado na sua memória e essa experiência já te mudou um pouco, não é mais a mesma pessoa e agora tens uma história diferente. Quando decidir voltar a deixar o cabelo crescer será a partir daqui. O que você viveu até agora vai te ajudar a ir um pouco mais à frente numa próxima vez. Tudo bem…
– Outra opção é usar uma peruca, ou qualquer outro método artificial e todos poderão apreciar seu novo visual mas tem duas coisas que você precisa saber. Se chegarem muito perto ou te tocarem vão ver que o cabelo é falso, que a mudança não é real e outra coisa muito mais importante, você sempre saberá disso, desde o começo sustentará uma mentira. Aprenderia a sofrer disso também? E a que custo seria viver aprendendo a sofrer? Valia a pena, vale o castigo? Pelo que eu estaria pagando?
Diante de tudo isso, entre comovido e confuso, inseguro e desejante, decidi a empenhar mais. Um voto de confiança em mim e na jornada até aqui.
Meu querido cabeleireiro disse ainda:
– Fazer o cabelo crescer não é um gesto. É um processo. São necessários paciência, persistência, ousadia e coragem pra continuar caminhando e mais a frente você vai descobrir outras etapas, novos desafios.
Depois de alguns anos, meus cabelos cresceram, meu cabeleireiro me ajudou a conquistar autonomia sobre eles e hoje consigo tratar deles com meus próprios recursos.
Meus encontros de tratamento se transformaram em visitas esporádicas entre dois amigos, cheias de saudade e afeto.
De fato fiz novas descobertas. Como é ser cabeludo? Como me relacionar com essa novidade que me destaca, que todos percebem, que me distingue? Como receber os elogios por minha conquista e por sua beleza autêntica? Devo acreditar nelas?
E os que me criticam? Será que eles têm razão? Acredito em mim?
Nessa hora lembro de minha última sessão de tratamento capilar e das palavras desse profissional.
– Este cabelo sempre esteve aí, só que curto. Você conseguiu deixá-lo crescer, veio de dentro, amadureceu com o tempo e se consolidou pelo seu empenho. É um lugar conquistado, mas sempre foi seu. Você tomou posse de quem é! E é isso que importa. Quem você é. Nesse período você cresceu junto do seu cabelo e quem você é hoje é o resultado dessa soma, da tua identidade e de suas vivências.
Diferente de todos por ser um. Igual aos outros por ser como todos. Humano!
O processo terapêutico pode ser comparado com seu cabelo.
Não pretendo aqui trazer uma novidade ou algo que ainda não foi dito mas essa analogia pode, de modo bastante simples, explicar o percurso de uma pessoa que decidiu ter ajuda de uma terapia para operar as mudanças que ela DESEJA.
